terça-feira, junho 10, 2008

os amores modernos

Até à Eternidade, Fred Zinnemann, EUA, 1953


Chegou o verão e o calor, com eles a azáfama mansa mas persistente do amor ,das relações ou casos, engates ou paixões, a gama romanesca que bem filtrada se reduz a sexo e amor, o amor parece também coisa de "saison" como as alergias e as picadas de melga. No Inverno abranda, há muito trabalho e está frio, na Primavera começa, e no Verão exulta, pois compreende-se, há o tempo de férias sem nada para fazer e quem conhece melhor ocupação que um "affaire"? Um amor é um excelente passatempo de férias para distrair e fazer exercício físico, para além de massajar o ego e não só. Temos portanto um caso de ocupação eficaz e saborosa dos tempos livres, em geral não sai muito cara e proporciona momentos de inegável prazer. Não se admirem no entanto se as empresas privadas de lazer não tenham tanto sucesso como isso ao propor uma gama variada de gigolos e acompanhantes para satisfazer este apetite de amor sazonal, pensaram e nalguns casos resulta, mas o que é paradoxal e risível nesta busca de amor moderna é que cada um não quer ser amado por qualquer coisa que faz ou proporciona ao outro, dinheiro, trabalho braçal, educação , comidinha boa, prendas, não, cada um quer ser amado por si, pela sua (palavra tão na moda) singularidade. Na sua vidinha burguesa e atarefada cada um quer a sua dosezinha de prestígio pessoal, alguém por ele apaixonado. Eu sei que este texto é cínico, ninguém dos visados poderia subscrevê-lo porque continuam a pensar na alma gémea e a acreditar no amor puro, mas na prática ninguém abdicaria da sua confortável vida por ele. O Miguel Esteves Cardoso já escreveu sobre isto e melhor, que o amor dá trabalho e é fo..., que não é só prazer também são os gritos, os compromissos e os obstáculos, mas as tristezas e os vazios que dizemos sentir por falta de amor continuam, a verdade é que à primeira adversidade pomo-nos a milhas , preferimos chorar porque não deu ou pomo-nos rapidamente à procura de um substituto, e fazemos melhor em procurar substitutos do que em chorar porque pelo menos não andamos a enganar-nos com o amor como se ele fosse absoluto e insubstituível quando não é, a questão parece-me apenas tédio, mais nada, e o melhor para o tédio talvez seja rapel, surf, canoagem, ou subir o Everest quem sabe...
(eu cá vou subir o Everest, devagarinho, claro, por causa da perna...)

13 Comments:

Blogger Ana said...

É a natureza humana que torna o amor tão complicado.
Pior ainda quando o hedonismo avança a largas passadas...

Estou de regresso à blogosfera se bem que não estou certa da regularidade dos meus posts.
Despi a pele de «sininho» que estava a rebentar pelas costuras...

Beijinho

7:33 da tarde <$BlogCommentDelete>
Blogger Martini said...

Bem...quanto descrédito no amor.
Enfim, afirmo, não contesto. A vida varia consoante o eu...
Digo-te apenas que acho que o amor não é sazonal, os flirts talvez, mas o amor não. O amor não tem época, apenas varia o seu formato. Que bom que é o aconchego no inverno, o quente quando lá fora é frio. Na, na o amor não é coisa de verão

3:28 da tarde <$BlogCommentDelete>
Blogger Frioleiras said...

tédio??????????

para ele nada melhor que ouvir um bom cd........


bj

11:19 da tarde <$BlogCommentDelete>
Blogger Frioleiras said...

e acrescento:

para matar um amor, nada melhor do que arranjar outro amor........

11:19 da tarde <$BlogCommentDelete>
Blogger Gi said...

Estou longe de o considerar cínico. Existem mais "verdades" para além da minha, não resumo a minha vida a um olhar para dentro nem a acreditar que o que eu faço ou acredito é seguido pela maioria.
Eu ainda acredito no amor , agora que o Miguel tem razão, ai isso também eu sei .

Tenho imenso prazer em ler-te. Mesmo quando as opiniões divergem :)

Boa escalada. Um beijo e um sorriso

4:24 da tarde <$BlogCommentDelete>
Blogger Bandida said...

mas olha que diz o poeta "é eterno enquanto dura"...

podes subir o everest acompanhada, ou não?


boa escalada!

11:47 da tarde <$BlogCommentDelete>
Blogger ~pi said...

o amor é tão simples...

embora por vezes se confunda com esta coisa

da infinita carência que é apenas

e apenas
isso mesmo, a carência

que passa e vai...

o amor de amar é raro e permanece e sei que podemos

reconhecê-lo e

sê-lo ~

10:23 da manhã <$BlogCommentDelete>
Blogger Ana Paula said...

Adorei! Uma análise contundente de como para se fugir ao tédio se cai tantas vezes no maior tédio.

Eu cá também alinho na escalada do Everest :) ou no surf :) ou no rapel. Vou mesmo pensar no caso muito a sério!
E como o Everest é imenso, deve ter espaço para muita gente se desentediar...

O amor existe, claro que sim, mas não é um bem de consumo.

Bom domingo!

5:37 da tarde <$BlogCommentDelete>
Blogger Frioleiras said...

voltei,
reli
e
concordei,

imenso,

com a mensagem da
~pi ..............

7:21 da tarde <$BlogCommentDelete>
Blogger manhã said...

ana: já lá fui espreitar, ainda bem que voltaste, já vou comentar!Bjo

martini:sim, sim, sim, tens razão como sempre.

frioleiras: absolutamente de acordo com as duas hipóteses de solução.bjo

gi: bom para ti, Gi, muito bom para ti. Obrigada és mesmo gentil.Bjo

bandida: pois não era má ideia não senhor, que lá faz muito frio...

~pi: ser e permanecer, bonita conjunção, poética! bonito o texto. Bravo ~pi!

ana paula: vamos então organizar excursão. Aceitam-se candidaturas.bjo

frioleiras:o balanço é: Amor 4 - Casos 0. e ficam dois para o Evereste e 1 para outras hipóteses.
Também?! 5 para o Amor. Não haja dúvida que ganha o Amor! que ganhe!pelo menos em imaginação ganha!

7:45 da tarde <$BlogCommentDelete>
Blogger Justine said...

Vim conhecer o teu blog, e gostei do texto que li: de uma ironia amarga, algum desencanto, mas verdadeiro, o que escreves.
E que a tua escalada corra bem:))


Obrigada pela visita lá pelo "Quarteto" :)) (os 4 livros, e não só a "Justine", são na minha opinião uma das grandes obras literárias do séc.xx)

10:12 da tarde <$BlogCommentDelete>
Blogger heretico said...

cínico o texto? diria antes "provocatório". (para não lhe chamar heretico rsss).

deves ter uma vista fenomenal. do alto do Everest...

12:24 da manhã <$BlogCommentDelete>
Blogger mdsol said...

muito fôlego... o resto...coração ao largo...
:))

9:31 da tarde <$BlogCommentDelete>

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