quarta-feira, maio 31, 2006
segunda-feira, maio 29, 2006
sexta-feira, maio 26, 2006

O'Neill , em Um Adeus português
" Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia a dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à virgula maníaca
do modo funcionário de viver."
segunda-feira, maio 22, 2006
na exposição às 4 da tarde
Frida Kahlo, imagem repetida à exaustão em revistas, filmes, livros, televisão. Talvez a pintora que melhor vendeu a imagem. Fotografada vezes sem conta, o seu rosto forte, macerado pela tragédia exibe uma determinação férrea em desafio constante, esse rosto vende mais que o tom obscuro e acriançado da obra. O que íamos ver ao vivo era o testemunho de uma vida de dor e génio, o testemunho de alguém que soube como ninguém fazer das fraquezas força, fazer da adversidade magia. Mas mesmo com estas expectativas mancas, o resultado da exposição atamancou-nos mesmo esse domingo. Quanto tempo estivemos à espera para entrar? montes de T.shirts coloridas em fila, animavam os corredores e as escadas do CCB, nós os "colturais", público ávido de umas migalhas de actualidade cosmopolita nesta cidadela meio rio, meio alfama e meio chinela no pé, nós dizia eu, aguentámo-nos, quê 1hora de pé? Diz-me tu que sabes melhor medir o tempo compartimentado. Talvez uma hora. De pé. Para ver uns quadritos raquíticos de uma mulher bela que já morreu. Comentários? Ai ai (suspiro). Preciso de digerir, talvez uns pasteis de nata , ali na pastelaria do lado, tivessem mais efeito cultural no meu turvo sangue que esta visita ao museu.sexta-feira, maio 19, 2006
segunda-feira, maio 15, 2006
Sorriso
sábado, maio 13, 2006
Cova da Iria. Fátima. São milhares de peregrinos em busca de uma paz, a fé inquebrável só se pode manter mesmo à custa de uma grande ilusão, intangível , ter fé no que é tangível e temporal, ter fé no que é feito do mesmo pó e do mesmo ouro que nós revela-se mais cedo ou mais tarde como desilusão, agora ter fé no que nunca se revela, parece ser fé para sempre, mantemos um amor desmedido na esperança eterna, ou uma esperança eterna no amor desmedido pois a este nível não há contrastes nem nuances, é assim ou não é e, se é , é sempre do mesmo que falamos. Confesso que não acredito no milagre da Senhora de Fátima , respeito o fervor destes milhares de almas, mas pergunto, porque não construímos nós , a esquerda, fervor idêntico? Voltamos à velha questão: é melhor viver de olhos abertos e desesperar ou fechá-los por momentos e deixar-se levar?terça-feira, maio 09, 2006
Egoístas

domingo, maio 07, 2006
A Gaivota
Anton Tchekov, A Gaivota, Teatro da Cornucópia, Enc. Luis Miguel Cintra,Maio 2006TcheKov escreveu-a com 36 anos, na sua casa da aldeia de Melikhovo, perto de Moscovo, em 1896, a sua primeira representação foi um fracasso, a segunda,dois anos depois, pelo Teatro de Arte de Moscovo um sucesso absoluto. Hoje esta peça continua uma paixão, para mim, a paixão. Já a representei, encenei, vi. Algumas das suas falas ecoam insistentes na memória e quando as digo ganham sentidos desconhecidos, assim como cada vez que a vejo as personagens são sempre outras, não aquelas que na imaginação respiram, pois esta história nunca se deixa tomar pelas suas interpretações, apesar de a renovarem nunca a esgotam, nunca os actores são as personagens, a Rita Durão não é a Nina, embora o Sorin do Luis Miguel Cintra esteja perto da perfeição, tão perto, diria êxtase absoluto, as mãos a voz, a expressão, o corpo, de todos os Sorins este é o maior! É certo que os actores dão emoção e vida às personagens mas estas continuam por desvendar, fugindo nos seus medos, nas sua fragilidades, ali, na sombra, manancial de inspiração para tantos actores e encenadores que lhes querem desvendar os segredos, querem possuí-las definitivamente. Talvez que o mistério desta peça não se revele no texto, mas na muda relação entre as personagens, no modo como sofrem uns nos outros a presença sem jamais a verbalizarem. Amores que não se compreendem, vidas que não se dominam, insatisfação contínua, sofrimento e latejar de horas. Movimento interior constante, exterior parado. Contradição, querer e não querer, ser e já não ser, pensar e envergonhar-se logo de seguida, levar-se a sério e rir-se de si próprio, a todo o momento, quão irrisório tudo se manifesta.
Se quisesse dizer de que trata a peça, se quisesse eleger um ponto de vista, uma ideia, iria fracassar, várias linhas se cruzam, sem graus de importância, aliás parafraseando o Luis Miguel Cintra, tudo em TcheKov tem importância, coçar o nariz, matar uma gaivota, escrever um livro, pescar, é tudo vida, corre, sem simbolismos, com amor às personagens às suas futilidades e do mesmo modo às suas grandezas. Do amor e da vida, da falta de amor e do seu excesso , ausência e excesso, sem medida certa, mas também sem fúria, com a resignação dos inevitáveis, cada um está preso no seu inevitável e sabe disso, da sua natureza e também das suas circunstâncias, não se lamenta nem se revolta, vive como sabe e pode. Também da Arte, esses quatro artistas, dois escritores e duas actrizes , rivalizam nessa luta que não sabemos se pelo amor à arte, se pelo amor do outro, compreendem, e nós também, que a vida é sempre maior que a arte mas esta é a qualidade superior da vida.
E tenho de voltar a escrever sobre isto que me dá ganas de não conseguir dizer quase nada. Pois é mesmo assim. É mesmo assim. " Se um dia precisares da minha vida, vem e leva-a."
sexta-feira, maio 05, 2006

O Que Será,Que Será
O que será, que será?
Que andam suspirando pelas alcovas?
Que andam sussurrando em versos e trovas?
Que andam combinando no breu das tocas?
Que anda nas cabeças, anda nas bocas?
Que andam ascendendo velas nos becos?
Que estão falando alto pelos botecos?
E gritam nos mercados que com certeza
Está na natureza.Será, que será.
O que não tem certeza, nem nunca terá?
O que não tem conserto, nem nunca terá?
O que não tem tamanho?
O que será, que será?
Que vive nas ideias desses amantes?
Que cantam os poetas mais delirantes?
Que juram os profetas embriagados?
Que está na romaria dos mutilados?
Que está na fantasia dos infelizes?
Que está no dia a dia das meretrizes?
No plano dos bandidos, dos desvalidos?
Em todos os sentidos.
Será, que será.
O que não tem decência, nem nunca terá?
O que não tem censura, nem nunca terá?
O que não faz sentido?
O que será, que será?
Que todos os avisos não vão evitar?
Por que todos os risos vão desafiar?
Por que todos os sinos irão repicar?
Por que todos os hinos irão consagrar?
E todos os meninos vão desembestar?
E todos os destinos irão se encontrar?
E mesmo o Padre Eterno,
Que nunca foi lá,
Olhando aquele inferno
Vai abençoar
O que não tem governo, nem nunca terá?
O que nao tem vergonha, nem nunca terá?
O que não tem juízo?
O que será que será.? Que não tem vergonha, nem nunca terá, que não tem governo nem nunca terá, que não tem juízo?
Está dito, tudo, nem uma vírgula podemos tirar, é perfeito.



