
Neste tempo de chuva dá-me para ler,este romance
Sputnik meu amor do japonês Haruki Muraki (estes nomes!!) lê-se bem, tem aquela atmosfera clara que só os orientais dão, uma espécie de aceitação do que é, com crueza sem conflitos interiores indissolúveis.
" O que aconteceu é que ao conhecer Miu deixei de pensar e ao seu lado deixava-me transportar para longe-para um lugar cuja existência me era totalmente estranha - e limitava-me a pensar: tudo bem, deixa-te ir com a maré.
Por outras palavras, para seguir Miu tive de me libertar ao máximo da bagagem.Até o próprio acto de pensar se tornou um fardo demasiado pesado."
Interrogo-me sobre estas frases. Esta paixão que temos pelo indivíduo aqui desvanece-se, como se o indivíduo fosse um Sputnik, o que resta de, o resto. Por amor mudamos e moldamo-nos de forma indelével ao que o outro quer e deseja. A questão coloca-se aí. Até onde podemos ir. Quais são os nossos limites. A mensagem é que o amor não é coisa de ego mas do seu desaparecimento, nesse contexto o indivíduo só volta a ser quando de algum modo o amor se torna impossível e quando volta a ser é a ausência que o define.Mas apesar de poder desaparecer o ego com toda a sua bagagem, a verdade é que há qualquer coisa no indivíduo que marca a sua solidão irremediável e isso tem a ver com a experiência e com o corpo. Neste caso, há um corpo que resiste e outro que deseja, são os factos, por mais que se queira, a vontade nada altera desse facto , por mais que sejamos no outro e pelo outro, há uma necessidade física e é essa que marca o início e o fim, essa marca restitui ao amor os seus limites e atira-nos para a experiência individual sem remédio.